Primeira Edição
Desenhos e ilustrações de
Sérgio Menezes da Silva
Arte final / Composição / Diagramação
Iraci Fumie Kamei
Primeira Leitura e Datilografia
Gutemberg Nascimento Pinto / 1978
quinta-feira, 29 de novembro de 2007
Copyright © 2007 by
Artifex Von Blauen
Coordenação editorial
Carlos Henrique Schroeder
Editoração eletrônica e projeto gráfico
Design Editora
Capa
Design Editora sobre ilustrções Sérgio Menezes da Silva
Ilustrações
Sérgio Menezes da Silva
[2007]
Todos os direitos desta edição reservados à
DESIGN EDITORA LTDA.
Caixa Postal 1.310
CEP 89.251-600
Jaraguá do Sul/SC
(47) 3372-3778
atendimento@designeditora.com.br
www.designeditora.com.br
Artifex Von Blauen
Coordenação editorial
Carlos Henrique Schroeder
Editoração eletrônica e projeto gráfico
Design Editora
Capa
Design Editora sobre ilustrções Sérgio Menezes da Silva
Ilustrações
Sérgio Menezes da Silva
[2007]
Todos os direitos desta edição reservados à
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OS QUE FAZEM FALTA A VON BLAUEN
ALFEU GOMES
ANTÔNIO MANOEL CORRÊA
ARMANDO AUGUSTO PEREIRA DE SOUZA MALVEIRA
(Castro Y Sol, Visconde Pinhel)
ELDA BAECHTOLD CORRÊA
GIACINTO ZATELLI
GUSTAV AUGUST FERDINAND HAGEDORN
GUTEMBERG NASCIMENTO PINTO
JOHANNA HOEPFNER HAGEDORN
JÚLIO CESAR DE ALMEIDA C. VALE
MARCO ANTÔNIO ALONSO DE OLIVEIRA
MARIA KRAETZER ZATELLI
THEOBALDO HAGEDORN
ANTÔNIO MANOEL CORRÊA
ARMANDO AUGUSTO PEREIRA DE SOUZA MALVEIRA
(Castro Y Sol, Visconde Pinhel)
ELDA BAECHTOLD CORRÊA
GIACINTO ZATELLI
GUSTAV AUGUST FERDINAND HAGEDORN
GUTEMBERG NASCIMENTO PINTO
JOHANNA HOEPFNER HAGEDORN
JÚLIO CESAR DE ALMEIDA C. VALE
MARCO ANTÔNIO ALONSO DE OLIVEIRA
MARIA KRAETZER ZATELLI
THEOBALDO HAGEDORN
ando percebendo, e já faz tempo, que o diabo da vontade de escrever
volta a me perturbar. Nada mais é que uma vontade de colocar no
papel uma porção de coisas, que mesmo que ninguém delas tenha
ouvido falar antes, pelo menos agora sejam ditas. Coisas que deverão
atingir a um público muito restrito em termos numéricos, mas
vitalmente necessário e importante para alguém como eu, que sempre
escreveu.
não ando como mariposa em volta da luz à cata de fama e sucesso
literário, sei de minhas limitações. Mas, ao final de tudo, vitória e
derrota, a qualquer cidadão comum de segunda classe como eu, tem
o mesmo sabor.
publiquei alguns trabalhos anteriores na área da poesia, e achei-me
poeta; escrevi estes e outros contos, e achei-me contista. Agora, porém,
passados tantos anos daqueles idos de 1978, descubro que sou aquilo
que sempre se pode ter certeza de que se é, quando se vive num país
como o nosso: Um cidadão de segunda classe. Um daqueles que nunca
pagarão imposto de renda, a não ser que modifiquem a constituição
(o que provavelmente farão).
não questiono mais a arte, deixo esta tarefa para os intelectuais; prefiro
questionar a realidade extremamente árdua em que vivemos, e que
em minha opinião pessoal é fruto de uma atividade política partidária
desleal. Os contos que escrevi então não os modifiquei, porque
representam toda a intensidade da vida naqueles tempos. Modificálos
seria reescrevê-los, seria reinterpretá-los à luz de uma nova verdade.
percorro então novamente o mesmo antigo caminho, como sempre,
íngreme e exaustivo, sendo cada etapa, contudo, diversa da anterior
já vencida, porque traz em seu bojo um certo sabor de presente.
dou audiência aos mudos seres que habitam o silêncio das palavras há
tanto escritas e percebo o que elas, essas personagens perdidas na
infinitude daquele tempo, têm a me dizer treze anos depois.
a atividade de escrever é uma atividade muito ingrata, como também
nos são ingratos aqueles a quem elegemos e que depois nos
transformam numa massa numérica, contabilizando votos e vitórias
para si em detrimento de nossas necessidades.
8
temos a capacidade de sobreviver neste país, porque nosso povo é
forte e generoso, e a despeito de todas as inflações que prometeram
ser combatidas “com uma única bala”, continuamos à mercê desses
jovens senhores. E eles, os “donos do poder”, esquecem-se
rapidamente, após eleitos que foram, que apenas servem aos deveres
constitucionais da “RES PÚBLICA” (a coisa pública), para o que
afinal foram eleitos.
não serão ingratificadas as combalidas esperanças de um mundo de
paz, enquanto americanos e europeus matam incógnitos iraquianos
em defesa de uma pretensa sociedade kwatiana igualmente bárbara,
em nome da “pax universallis”?
sem dúvida, quando escrevi este trabalho, o mundo era outro, e falava
nele de um mundo ainda interior. A utopia dos anos setenta, o último
extertor dos sonhos, ainda vingava com seu poder de nos transformar
em seres melhores, enquanto no Brasil caçávamos terroristas em
Xambioá.
fazíamos todos parte desse sonho, e algum tempo depois eu também
seria caçado pelos meus companheiros de jornada. Naqueles idos ainda
acreditava que seria escritor, acreditava que era poeta e ideologicamente
ainda supunha que o mundo pudesse continuar sendo dividido entre
capitalismo e comunismo.
hoje vivemos em nosso país a triste realidade: vivemos em clima de
guerra civil não declarada. Assassinam-se crianças em nome da ordem
e temas, pelos quais lutávamos por transformar em assuntos de pauta,
tais como: drogas, pobreza, menor abandonado, famílias sem terra,
cidadão sem direitos, continuam a ser apenas uma realidade latente,
não expressa e não assumida e, principalmente, não resolvida.
uma realidade nunca considerada na hora dos políticos se sentarem a
uma mesa de negociações, a não ser que a mesa seja um balcão de
negócios das próximas eleições.
vivemos numa imensa megalópole de cidadãos de segunda classe, com
nossos direitos mais elementares negados, governados por burocratas
de primeira classe, e por arrivistas de última hora.
fala-se que necessitamos fazer nossa parte, dar nossa colaboração, o
9
que todos temos feito... E como! Como diz o Millôr “Não é o cavalo
de raça que ganha o prêmio. Quem ganha é o dono, geralmente um
vira-latas”. Nosso povo teve e tem fibra, mas nunca ganhará o prêmio
por haver vencido a “corrida”. O prêmio é só do dono, geralmente
um vira-latas qualquer, eleito de última hora pela mesma manada de
cavalos mal informados, que depois irão correr no grande prêmio.
a audácia de apresentar esses trabalhos, de 1978, será sem dúvida um
crime do qual não me absolvo. Assim como não me absolvo de havêlos
escritos um dia, como também não me absolvo de ter participado
da história nem sempre apenas pelo lado correto aos meus olhos de
hoje. Gabo-me, porém, de haver sido sempre honesto em meus
propósitos e, portanto, não estou em débito com ninguém. A um
homem, ser honesto a si próprio já lhe basta.
nada levo à minha história, e não errei mais que qualquer um dos
outros, que como eu “amava os Beatles e os Rolling Stones”. Só que
não fiquei famoso, e estou à parte dessa corja verde-amarela.
continuo escrevendo muito. Sou um “artífice”, e um artesão não pode
parar, mesmo que como cidadão seja meramente um daqueles de
segunda classe.
não tive direito ao banquete, mas tenho direito ao arroto, no final da
festa, como se tivesse também me fartado.
Curitiba, 20/10/78 – 7/10/91
A. Von Blauen
volta a me perturbar. Nada mais é que uma vontade de colocar no
papel uma porção de coisas, que mesmo que ninguém delas tenha
ouvido falar antes, pelo menos agora sejam ditas. Coisas que deverão
atingir a um público muito restrito em termos numéricos, mas
vitalmente necessário e importante para alguém como eu, que sempre
escreveu.
não ando como mariposa em volta da luz à cata de fama e sucesso
literário, sei de minhas limitações. Mas, ao final de tudo, vitória e
derrota, a qualquer cidadão comum de segunda classe como eu, tem
o mesmo sabor.
publiquei alguns trabalhos anteriores na área da poesia, e achei-me
poeta; escrevi estes e outros contos, e achei-me contista. Agora, porém,
passados tantos anos daqueles idos de 1978, descubro que sou aquilo
que sempre se pode ter certeza de que se é, quando se vive num país
como o nosso: Um cidadão de segunda classe. Um daqueles que nunca
pagarão imposto de renda, a não ser que modifiquem a constituição
(o que provavelmente farão).
não questiono mais a arte, deixo esta tarefa para os intelectuais; prefiro
questionar a realidade extremamente árdua em que vivemos, e que
em minha opinião pessoal é fruto de uma atividade política partidária
desleal. Os contos que escrevi então não os modifiquei, porque
representam toda a intensidade da vida naqueles tempos. Modificálos
seria reescrevê-los, seria reinterpretá-los à luz de uma nova verdade.
percorro então novamente o mesmo antigo caminho, como sempre,
íngreme e exaustivo, sendo cada etapa, contudo, diversa da anterior
já vencida, porque traz em seu bojo um certo sabor de presente.
dou audiência aos mudos seres que habitam o silêncio das palavras há
tanto escritas e percebo o que elas, essas personagens perdidas na
infinitude daquele tempo, têm a me dizer treze anos depois.
a atividade de escrever é uma atividade muito ingrata, como também
nos são ingratos aqueles a quem elegemos e que depois nos
transformam numa massa numérica, contabilizando votos e vitórias
para si em detrimento de nossas necessidades.
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temos a capacidade de sobreviver neste país, porque nosso povo é
forte e generoso, e a despeito de todas as inflações que prometeram
ser combatidas “com uma única bala”, continuamos à mercê desses
jovens senhores. E eles, os “donos do poder”, esquecem-se
rapidamente, após eleitos que foram, que apenas servem aos deveres
constitucionais da “RES PÚBLICA” (a coisa pública), para o que
afinal foram eleitos.
não serão ingratificadas as combalidas esperanças de um mundo de
paz, enquanto americanos e europeus matam incógnitos iraquianos
em defesa de uma pretensa sociedade kwatiana igualmente bárbara,
em nome da “pax universallis”?
sem dúvida, quando escrevi este trabalho, o mundo era outro, e falava
nele de um mundo ainda interior. A utopia dos anos setenta, o último
extertor dos sonhos, ainda vingava com seu poder de nos transformar
em seres melhores, enquanto no Brasil caçávamos terroristas em
Xambioá.
fazíamos todos parte desse sonho, e algum tempo depois eu também
seria caçado pelos meus companheiros de jornada. Naqueles idos ainda
acreditava que seria escritor, acreditava que era poeta e ideologicamente
ainda supunha que o mundo pudesse continuar sendo dividido entre
capitalismo e comunismo.
hoje vivemos em nosso país a triste realidade: vivemos em clima de
guerra civil não declarada. Assassinam-se crianças em nome da ordem
e temas, pelos quais lutávamos por transformar em assuntos de pauta,
tais como: drogas, pobreza, menor abandonado, famílias sem terra,
cidadão sem direitos, continuam a ser apenas uma realidade latente,
não expressa e não assumida e, principalmente, não resolvida.
uma realidade nunca considerada na hora dos políticos se sentarem a
uma mesa de negociações, a não ser que a mesa seja um balcão de
negócios das próximas eleições.
vivemos numa imensa megalópole de cidadãos de segunda classe, com
nossos direitos mais elementares negados, governados por burocratas
de primeira classe, e por arrivistas de última hora.
fala-se que necessitamos fazer nossa parte, dar nossa colaboração, o
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que todos temos feito... E como! Como diz o Millôr “Não é o cavalo
de raça que ganha o prêmio. Quem ganha é o dono, geralmente um
vira-latas”. Nosso povo teve e tem fibra, mas nunca ganhará o prêmio
por haver vencido a “corrida”. O prêmio é só do dono, geralmente
um vira-latas qualquer, eleito de última hora pela mesma manada de
cavalos mal informados, que depois irão correr no grande prêmio.
a audácia de apresentar esses trabalhos, de 1978, será sem dúvida um
crime do qual não me absolvo. Assim como não me absolvo de havêlos
escritos um dia, como também não me absolvo de ter participado
da história nem sempre apenas pelo lado correto aos meus olhos de
hoje. Gabo-me, porém, de haver sido sempre honesto em meus
propósitos e, portanto, não estou em débito com ninguém. A um
homem, ser honesto a si próprio já lhe basta.
nada levo à minha história, e não errei mais que qualquer um dos
outros, que como eu “amava os Beatles e os Rolling Stones”. Só que
não fiquei famoso, e estou à parte dessa corja verde-amarela.
continuo escrevendo muito. Sou um “artífice”, e um artesão não pode
parar, mesmo que como cidadão seja meramente um daqueles de
segunda classe.
não tive direito ao banquete, mas tenho direito ao arroto, no final da
festa, como se tivesse também me fartado.
Curitiba, 20/10/78 – 7/10/91
A. Von Blauen
PARTIDA CONTRA PARTIDA
“Oh! Vanitá degli ricordi...”
Petrarca
o colégio, antigo, cheirando mofo em cada um dos seus cantos, sabia
ser acolhedor. A única via calçada da cidade era definida como sendo
o centro daquela coisa toda agitada. Lembro-me bem dos corredores
grandes, largos, escadarias que eu subia e descia como membro de
um rebanho de cabecinhas. Os empurrões, os tapas, as quedas, os
papos. o Oscar com suas idéias, criando sempre tanques imaginários
a se degladiarem em guerras fictícias. Ele e sua metralhadora:
ratatatatatatatatatatatatatata. Ele e suas granadas de mão: skrech-schiiiibuuuuuuuuuum.
Ele e suas continências. Ele e suas ilusões. Oscar e
seu mundo...
Jorge, baixinho, atarracado, moreno, cabelos penteados com capricho,
falando de sua mamãezinha tão meiga, carinhosa...
Pedro, louro, forte, espadaúdo, lembrando bem um componente da
juventude hitlerista, sem uniforme, sorrindo dos outros, chacota
estampada nas faces. Sorríamos todos. O religioso mestre na entrada
da sala dando trela a alguns “cdf ”.
o colégio hoje ainda é o mesmo. Mas as caras mudaram. Mudou a
cidade, os tipos, os gêneros. O dinheiro com sua boca grotesca devorou
o romantismo infantil do meu tempo.
naquele tempo tão distante, eu sabia ler pouco, e mesmo assim havia
adquirido o hábito de apreciar a literatura. Assim eu não me inteirava
das idéias que percorriam os celeiros de inteligência do mundo todo,
das novidades que cruzavam por outras cabecinhas pequeninas, iguais
à minha. Talvez por isso, eu só pensava mesmo era em progredir,
queria ter dinheiro, comprar uma casa enorme como a em que morava
o Humberto, ter um carro igual ao do pai do Carlos, trajar-me como
o Célio, ter brinquedos como os do Wilson, ser rico como o Júlio
César. Mas à tardezinha, quando eu voltava para casa, corria depressa
para o pomar, colhia frutas, de pé no chão e torso nu, rolava pelo
chão com a Bolinha, meu cãozinho de estimação, esquecia qualquer
ambição que eu tivesse tido durante o dia.
nossa casa era simples, de madeira, e embora o terreno fosse amplo e
a natureza pródiga, eu não conseguia ser feliz. Papai, é provável que
estivesse a cavalo de sua bicicleta Prosdócimo, rodando de bar em
bar, em busca de alegria e diversão, empregando neste seu investimento
o pouco dinheiro que tínhamos.
mamãe reclamava às vezes, mas mesmo assim continuava
metodicamente enriquecendo nossa casinha modesta com alguns
frutos de seu próprio labor. Trapos e panos simples eram um luxo
quase desusado ali. Uma toalha era preparada com todo o carinho,
com um saco de algodão, desses de sessenta quilos, debruado com
algum tecido colorido.
então, em minha cidade, quase colonial, pouco podia se esperar da
vida. Mas eu sonhava com coisas que me tornariam rico. E o tempo
passando, como nasce o sol a cada raiar de um novo dia, dizendo que
vinha pra ficar por vinte e quatro horas e depois ceder lugar ao
espetáculo no qual as pessoas ensaiavam a morte.
eu adormecia, principalmente, levado pela razão ou instinto de que
era necessário dormir muito para se chegar a ser um homem. E criança
eu não podia enriquecer, afinal só se enriquece pelo trabalho e pequeno
eu não poderia trabalhar...
foi num desses dias, cuja data eu não consigo precisar, ou talvez tenha
sido com o correr do tempo, nunca se consegue demarcar com exatidão
essas mudanças físicas que sofremos, amanheci sentindo-me estranho.
Entre as pernas descobri um pelinho pequeno, mirrado, frágil,
inseguro. De lá pra cá era um tal de se olhar todos os dias. Tomara
que aparecessem mais alguns pelinhos. Queria ter um matagal plantado
aí. Creio ter sido essa a verdadeira origem da discreta corcunda, que
carrego até hoje.
ter pelos naquela região significava que o amadurecimento estava
prestes a se concretizar.
depois uns pelos esparsos pela cara dando-me um ar cômico como se
fora um bufão alegre e sorrateiro. Na parte basal do nariz havia uma
depressão, fruto dos anos em que portei óculos baratos de aros negros
e grosseiros. Um nariz delicado, masculino, caído sobre a boca. Um
queixo saliente e, finalmente, dois lábios polpudos, isso tudo formava
uma cara simpática só deturpada pelas duas quedas angulares nas
extremidades da boca, o que modificava todo o meu semblante alegre
para um triste ar de espanto ou medo.
o cabelo cortado em escovinha. As calças largas, mas desajeitadas,
sem nenhuma preocupação com a moda, curtas, atingindo suas barras
a altura das canelas, deixando à mostra um par de meias grossas,
extremadas por dois sapatos velhos e rotos. Aí estava o rico
senhorzinho, jovem e desprevenido, sentando numa mesinha de
escritório, datilografando gráficos e números, ganhando bastante, mas
não o suficiente para que se sentisse feliz.
meus sonhos morreram todos num dia qualquer de outono. Caíram
ao chão e foram sepultados pelas folhas que caíam das árvores.
a cidade crescera. E não tinha mais lugar para mim. Agora eu já lera
bastante e sabia que alguma outra cidade me receberia em seu seio,
como um cidadão oscilante e ali eu seria alguma coisa qualquer. Mas
não morrera ainda em mim o meu velho sonho de riqueza. Eu iria
para outra cidade maior e que me obsequiasse com melhores condições,
depois voltaria rico.
meus amigos me receberiam estendendo um tapete de flores e relva
úmida de sereno. As tulipas trocariam beijos, os copos-de-leite fariam
soar suas corolas à guisa de trompetes. As margaridas se desfolhariam
para mim.
eu tinha que partir!
olhei de novo para o fundo da mala. Estava tudo ali, o que eu possuía.
dentro dela, um caderno de notas, duas calças, três camisas, um par
de sapatos envernizados de couro de segunda, a santinha que ganhara
de um padrinho meu..
fechei-a.
girei a chave.
era perigoso, disseram-me os vizinhos, podem roubar-te a mala. Não,
eu não me separaria dela.
um abraço no pai, que já não bebia mais e que continuava, apesar
disso, muito distante de mim; um abraço na velha e um beijo em sua
cara umedecida pelas lágrimas que lhe escorriam em profusão pela
cara enrugada.
entrei no ônibus rumo ao desconhecido, levando na mala tudo o que
possuía e no coração, apertado por uma angústia deprimente, uma
série de emoções indistinguíveis. O cérebro maquinava as maravilhas
que eu poria em prática na cidade nova.
a poeira enovelava-se atrás do veículo, pondo-me confuso. Mas eu
sabia, ela funcionava como um marco divisório entre duas etapas de
minha vida. Era irreversível. Fosse o que fosse que eu estivesse
começando, não poderia mais voltar atrás.
foi bem assim que parti. É claro, a satisfação ilusória de conhecer
gente nova, novos lugares, de ter novas sensações e de novos contatos
se ativando a cada passo subornou minha sã consciência de progredir
financeiramente. Talvez fosse o cansaço de lutar que me derrotou.
Mas restou ainda uma vontade enorme de gerar maravilhas com minha
cabecinha oca.
e comecei a escrever. Consegui muito pouco com isto. Mas mesmo
assim isso soava-me como a idéia da poeira que deixei pra trás em
minha cidade. E meu espírito, sugestionado por meu próprio ego,
bateu-me às costas carinhoso, dizendo: Para frente meu rapaz, para
frente. E eu fui!
Petrarca
o colégio, antigo, cheirando mofo em cada um dos seus cantos, sabia
ser acolhedor. A única via calçada da cidade era definida como sendo
o centro daquela coisa toda agitada. Lembro-me bem dos corredores
grandes, largos, escadarias que eu subia e descia como membro de
um rebanho de cabecinhas. Os empurrões, os tapas, as quedas, os
papos. o Oscar com suas idéias, criando sempre tanques imaginários
a se degladiarem em guerras fictícias. Ele e sua metralhadora:
ratatatatatatatatatatatatatata. Ele e suas granadas de mão: skrech-schiiiibuuuuuuuuuum.
Ele e suas continências. Ele e suas ilusões. Oscar e
seu mundo...
Jorge, baixinho, atarracado, moreno, cabelos penteados com capricho,
falando de sua mamãezinha tão meiga, carinhosa...
Pedro, louro, forte, espadaúdo, lembrando bem um componente da
juventude hitlerista, sem uniforme, sorrindo dos outros, chacota
estampada nas faces. Sorríamos todos. O religioso mestre na entrada
da sala dando trela a alguns “cdf ”.
o colégio hoje ainda é o mesmo. Mas as caras mudaram. Mudou a
cidade, os tipos, os gêneros. O dinheiro com sua boca grotesca devorou
o romantismo infantil do meu tempo.
naquele tempo tão distante, eu sabia ler pouco, e mesmo assim havia
adquirido o hábito de apreciar a literatura. Assim eu não me inteirava
das idéias que percorriam os celeiros de inteligência do mundo todo,
das novidades que cruzavam por outras cabecinhas pequeninas, iguais
à minha. Talvez por isso, eu só pensava mesmo era em progredir,
queria ter dinheiro, comprar uma casa enorme como a em que morava
o Humberto, ter um carro igual ao do pai do Carlos, trajar-me como
o Célio, ter brinquedos como os do Wilson, ser rico como o Júlio
César. Mas à tardezinha, quando eu voltava para casa, corria depressa
para o pomar, colhia frutas, de pé no chão e torso nu, rolava pelo
chão com a Bolinha, meu cãozinho de estimação, esquecia qualquer
ambição que eu tivesse tido durante o dia.
nossa casa era simples, de madeira, e embora o terreno fosse amplo e
a natureza pródiga, eu não conseguia ser feliz. Papai, é provável que
estivesse a cavalo de sua bicicleta Prosdócimo, rodando de bar em
bar, em busca de alegria e diversão, empregando neste seu investimento
o pouco dinheiro que tínhamos.
mamãe reclamava às vezes, mas mesmo assim continuava
metodicamente enriquecendo nossa casinha modesta com alguns
frutos de seu próprio labor. Trapos e panos simples eram um luxo
quase desusado ali. Uma toalha era preparada com todo o carinho,
com um saco de algodão, desses de sessenta quilos, debruado com
algum tecido colorido.
então, em minha cidade, quase colonial, pouco podia se esperar da
vida. Mas eu sonhava com coisas que me tornariam rico. E o tempo
passando, como nasce o sol a cada raiar de um novo dia, dizendo que
vinha pra ficar por vinte e quatro horas e depois ceder lugar ao
espetáculo no qual as pessoas ensaiavam a morte.
eu adormecia, principalmente, levado pela razão ou instinto de que
era necessário dormir muito para se chegar a ser um homem. E criança
eu não podia enriquecer, afinal só se enriquece pelo trabalho e pequeno
eu não poderia trabalhar...
foi num desses dias, cuja data eu não consigo precisar, ou talvez tenha
sido com o correr do tempo, nunca se consegue demarcar com exatidão
essas mudanças físicas que sofremos, amanheci sentindo-me estranho.
Entre as pernas descobri um pelinho pequeno, mirrado, frágil,
inseguro. De lá pra cá era um tal de se olhar todos os dias. Tomara
que aparecessem mais alguns pelinhos. Queria ter um matagal plantado
aí. Creio ter sido essa a verdadeira origem da discreta corcunda, que
carrego até hoje.
ter pelos naquela região significava que o amadurecimento estava
prestes a se concretizar.
depois uns pelos esparsos pela cara dando-me um ar cômico como se
fora um bufão alegre e sorrateiro. Na parte basal do nariz havia uma
depressão, fruto dos anos em que portei óculos baratos de aros negros
e grosseiros. Um nariz delicado, masculino, caído sobre a boca. Um
queixo saliente e, finalmente, dois lábios polpudos, isso tudo formava
uma cara simpática só deturpada pelas duas quedas angulares nas
extremidades da boca, o que modificava todo o meu semblante alegre
para um triste ar de espanto ou medo.
o cabelo cortado em escovinha. As calças largas, mas desajeitadas,
sem nenhuma preocupação com a moda, curtas, atingindo suas barras
a altura das canelas, deixando à mostra um par de meias grossas,
extremadas por dois sapatos velhos e rotos. Aí estava o rico
senhorzinho, jovem e desprevenido, sentando numa mesinha de
escritório, datilografando gráficos e números, ganhando bastante, mas
não o suficiente para que se sentisse feliz.
meus sonhos morreram todos num dia qualquer de outono. Caíram
ao chão e foram sepultados pelas folhas que caíam das árvores.
a cidade crescera. E não tinha mais lugar para mim. Agora eu já lera
bastante e sabia que alguma outra cidade me receberia em seu seio,
como um cidadão oscilante e ali eu seria alguma coisa qualquer. Mas
não morrera ainda em mim o meu velho sonho de riqueza. Eu iria
para outra cidade maior e que me obsequiasse com melhores condições,
depois voltaria rico.
meus amigos me receberiam estendendo um tapete de flores e relva
úmida de sereno. As tulipas trocariam beijos, os copos-de-leite fariam
soar suas corolas à guisa de trompetes. As margaridas se desfolhariam
para mim.
eu tinha que partir!
olhei de novo para o fundo da mala. Estava tudo ali, o que eu possuía.
dentro dela, um caderno de notas, duas calças, três camisas, um par
de sapatos envernizados de couro de segunda, a santinha que ganhara
de um padrinho meu..
fechei-a.
girei a chave.
era perigoso, disseram-me os vizinhos, podem roubar-te a mala. Não,
eu não me separaria dela.
um abraço no pai, que já não bebia mais e que continuava, apesar
disso, muito distante de mim; um abraço na velha e um beijo em sua
cara umedecida pelas lágrimas que lhe escorriam em profusão pela
cara enrugada.
entrei no ônibus rumo ao desconhecido, levando na mala tudo o que
possuía e no coração, apertado por uma angústia deprimente, uma
série de emoções indistinguíveis. O cérebro maquinava as maravilhas
que eu poria em prática na cidade nova.
a poeira enovelava-se atrás do veículo, pondo-me confuso. Mas eu
sabia, ela funcionava como um marco divisório entre duas etapas de
minha vida. Era irreversível. Fosse o que fosse que eu estivesse
começando, não poderia mais voltar atrás.
foi bem assim que parti. É claro, a satisfação ilusória de conhecer
gente nova, novos lugares, de ter novas sensações e de novos contatos
se ativando a cada passo subornou minha sã consciência de progredir
financeiramente. Talvez fosse o cansaço de lutar que me derrotou.
Mas restou ainda uma vontade enorme de gerar maravilhas com minha
cabecinha oca.
e comecei a escrever. Consegui muito pouco com isto. Mas mesmo
assim isso soava-me como a idéia da poeira que deixei pra trás em
minha cidade. E meu espírito, sugestionado por meu próprio ego,
bateu-me às costas carinhoso, dizendo: Para frente meu rapaz, para
frente. E eu fui!
OS PROSTITUÍDOS
mãe e filho caminhavam ladalado. Entre eles a distância ágrafa da
solidão pessoal! Ela uma mulher de meia-idade, cara alegre e toda
sorriso. Ele, um jovenzinho patético, cara imberbe, tristinho e vazio.
Ambos, apenas mãe-e-filho, que apesar do respeito com que nutriam
as mútuas esperanças, geravam entre si o amargo sabor da angústia
nebulosa (...que inda agorinha os fizera sorrir do velho que se assustou
com a buzina, que disparou, do carro-máquina-cruel-e-poluidoragenial-
invenção-humana...). A chuva castigou seus rostos claros/
escuros num sombreado de fuga, que agora só, restava amargurado
debaixo das cabeleiras volumosas. Perdoavam-se pelos erros cometidos
e que cometiam? Quiçás apenas se aceitassem humanos e portanto,
passíveis deles. Eram contrastantes. Ela, baixa. Ele, alto. Ambos,
azedos, juntos e compenetrados. Pensavam em tudo... Ela, meiga
embora, doava-se ao amante. Haveria perdão do filho gay? Ah! Claro
que eu não disse. E ela, poderia perdoar ao filho pelos seus pendões
satíricos de crítica social a gentes e povos sociáveis e deturpadores.
Revolucionários? O tempo (que num velho chavão archayco) talvez
trouxesse em suas dobras, veras respostas pra tudo! A dialética de
sobre como, o que, e coisas do gênero pode ser perfeita do ponto de
vista crítico, mas tão maçante que o amigo desavisado apenas entenderá
como supérfluo. E era o mesmo o raciocínio das personagens
impotentes e microscópicas deste cenário olivudiano. A experiência
era irreal, as vidas efêmeras, os homens, pequeninas marionetes; a
dignidade de pensar, vã e sem sentido. A chuva parou. Parados sob a
marquise do edifício em construção, mãe e filho entreolharam-se,
enlevados e absortos. Os olhos, talvez neste raro momento de encontro
vero, olhavam bem mais fundo do que a mera superficialidade cênica,
que ambos trajavam ou despiam, ou ainda trocavam por outra mais
cômoda. Filho serei tão amargo, de forma a despertar em ti a paixão
que submerge na dor de teu coração? Mãe, serei tão odioso e repelente,
a ponto de embalar em teu olhar, a piedade que soçobra a tua
magnificência e bondade, neste teu coração servil? Pensamentos/
Coisas/Idéias cruzavam o espaço. Gente/Carros/Animais cruzavam
as ruas largas. A felicidade escapava pelas frestas indecorosas deixadas
pelos raios de um tênue sol que amordaçado e frágil, surgia dentre as
nuvens negras e enormes. As mãos se chocaram. Os corpos se juntaram
num pax-de-deux divino e filial: estreitaram-se. Ela saiu e partiu. Ele,
quedo, imoto, estagnado, foi ficando pra trás na lembrança. A imagem
pequena, ínfima, reduziu-se a um ponto. Ponto só. E pensar, quem
diria, que espaços e retas (ausência e sucessão de pontos infinitos)
fossem pontos iguais àqueles? Caiu a chuva, novamente. A água era
tragada pelo esgoto na beira da rua larga. Por ela cruzavam carros,
gentes, animais. E à sua margem havia um homem só e barbado a
roçar o peito peludo e vazio de outro só. Infelizes prostituídos do
sádico mundo que os rodeia. Sós, ambos-ladalado, mais nada!
solidão pessoal! Ela uma mulher de meia-idade, cara alegre e toda
sorriso. Ele, um jovenzinho patético, cara imberbe, tristinho e vazio.
Ambos, apenas mãe-e-filho, que apesar do respeito com que nutriam
as mútuas esperanças, geravam entre si o amargo sabor da angústia
nebulosa (...que inda agorinha os fizera sorrir do velho que se assustou
com a buzina, que disparou, do carro-máquina-cruel-e-poluidoragenial-
invenção-humana...). A chuva castigou seus rostos claros/
escuros num sombreado de fuga, que agora só, restava amargurado
debaixo das cabeleiras volumosas. Perdoavam-se pelos erros cometidos
e que cometiam? Quiçás apenas se aceitassem humanos e portanto,
passíveis deles. Eram contrastantes. Ela, baixa. Ele, alto. Ambos,
azedos, juntos e compenetrados. Pensavam em tudo... Ela, meiga
embora, doava-se ao amante. Haveria perdão do filho gay? Ah! Claro
que eu não disse. E ela, poderia perdoar ao filho pelos seus pendões
satíricos de crítica social a gentes e povos sociáveis e deturpadores.
Revolucionários? O tempo (que num velho chavão archayco) talvez
trouxesse em suas dobras, veras respostas pra tudo! A dialética de
sobre como, o que, e coisas do gênero pode ser perfeita do ponto de
vista crítico, mas tão maçante que o amigo desavisado apenas entenderá
como supérfluo. E era o mesmo o raciocínio das personagens
impotentes e microscópicas deste cenário olivudiano. A experiência
era irreal, as vidas efêmeras, os homens, pequeninas marionetes; a
dignidade de pensar, vã e sem sentido. A chuva parou. Parados sob a
marquise do edifício em construção, mãe e filho entreolharam-se,
enlevados e absortos. Os olhos, talvez neste raro momento de encontro
vero, olhavam bem mais fundo do que a mera superficialidade cênica,
que ambos trajavam ou despiam, ou ainda trocavam por outra mais
cômoda. Filho serei tão amargo, de forma a despertar em ti a paixão
que submerge na dor de teu coração? Mãe, serei tão odioso e repelente,
a ponto de embalar em teu olhar, a piedade que soçobra a tua
magnificência e bondade, neste teu coração servil? Pensamentos/
Coisas/Idéias cruzavam o espaço. Gente/Carros/Animais cruzavam
as ruas largas. A felicidade escapava pelas frestas indecorosas deixadas
pelos raios de um tênue sol que amordaçado e frágil, surgia dentre as
nuvens negras e enormes. As mãos se chocaram. Os corpos se juntaram
num pax-de-deux divino e filial: estreitaram-se. Ela saiu e partiu. Ele,
quedo, imoto, estagnado, foi ficando pra trás na lembrança. A imagem
pequena, ínfima, reduziu-se a um ponto. Ponto só. E pensar, quem
diria, que espaços e retas (ausência e sucessão de pontos infinitos)
fossem pontos iguais àqueles? Caiu a chuva, novamente. A água era
tragada pelo esgoto na beira da rua larga. Por ela cruzavam carros,
gentes, animais. E à sua margem havia um homem só e barbado a
roçar o peito peludo e vazio de outro só. Infelizes prostituídos do
sádico mundo que os rodeia. Sós, ambos-ladalado, mais nada!
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